Agora eu era uma mendiga. Uma rapariga jovem que pelas vestes e pelo ambiente circundante estava a viver pelas décadas de 1800, tudo transpirava ostensividade. Vestindo um pano cru muito rasgado me vi escanzelada. Os ossos se percebiam na transparência da pele.
Estava sentada nos degraus de uma casa senhorial e sentia muita fome. A casa era imponente como tudo o que meus olhos viam. Ali estava eu na mendicância, aguardando que alguém por ali passasse e me visse, mas ninguém parecia dar pela minha presença. Eu estava sentada perto de uma porta, dessa porta saía uma grande escadaria em pedra em tons creme que dava depois lugar a um majestoso jardim, ele era de uma beleza que os meus olhos nunca tinham visto. Eu sentia que só aquele jardim sabia que eu estava ali.
Entretanto despertei daquele instante que generosamente me retirara da fome em que me encontrava e passando bem rentinho a mim, vi duas senhoras muito bem vestidas, enveredando uns volumosos vestidos cheios de cor, laços e rendas coloridas. Que bonitos eram! - Pensava eu. A fome não havia atordoado a minha sensibilidade de apreciar o que era belo. Os cabelos impecavelmente enformados, eram verdadeiras peças de arte que se alinhavam ordeiramente em penteados originais, bem diferente dos meus cabelos que fracos e escorridos me caíam pela cara e pelos ombros abaixo. Elas passaram, mas eu era invisível a qualquer olhar.
Senti-me frágil e senti a vergonha por estar a pedir de mão estendida, mas verdade é que eu não tinha nada o que comer. Me vi perdida em pensamentos e observando uma quantidade generosa de borboletas salpicadas de mil cores que esvoaçavam por cima de um arbusto que ali repousava bem perto de mim. A fome deveria estar a toldar-me o juízo, pois as borboletas na sua leveza carregavam um brilho que quase me cegava e eu estava como que hipnotizada por aquele bailado que parecia acontecer só para mim.
Tanta beleza e ali estava eu, pedindo esmola. Sentia que o meu corpo, assim como a minha condição de vida não condiziam com aquele lugar, mas o meu espírito, sim, esse era também ele colorido e vibrante como tudo o que ali via. O meu espírito conversava com as flores, com o sol, com o céu azul e com o ar que me carregava de vida o corpo e os pulmões. O meu espírito, esse, se sentia livre e esvoaçava acima de mim, como as deslumbrantes borboletas. O meu espírito era doce, rico e diversificado como aquele jardim. Observando o meu corpo faminto, não senti em nenhum momento revolta e ali permaneci, mansa e magra, aceitando que não era o alimento para o corpo que me fortalecia, pois esse continuava em falta, mas sabia que um outro alimento me mantinha.
Como se eu falasse com tudo ao meu redor e sentisse tudo tão à flor da alma, mas ninguém conseguisse aceder à profundidade deste sentir.
Eu era em pedaços e foi com Maria que me fiz inteira. Ela é, sem dúvida o meu maior amor e digo-o com muita humildade. Sem Maria eu não existia. Maria me resgatou e fez brotar em mim um jardim que hoje perfuma os meus dias. Como não amar a sua incondicionalidade. Como não amar quem colhe cada um de nossos pedaços perdidos e jazidos por aqui e por ali. Como não amar quem limpa cada um desses pedaços, com esmero, sabedoria e paciência e nos constrói, pedaço a pedaço, colocando cada um desses pedaços no seu merecido lugar.- Como não amá-la?
Como não amar quem nos olha e nos vê tal como somos e ainda assim nos ama. Como não amar quem nos observa a cometer o maior dos erros e nos deixando avançar, nos vê cair, nos limpa as feridas, sabendo que um importante passo seria dado com essa queda. Como não amar?
Sei que Ela está comigo desde sempre e que na entrada do meu coração aguardou pacientemente que acontecesse o meu amanhecer.
Sei que sempre aqui esteve, mesmo quando aos 6 anos vivi o maior dos terrores, uma faca que pelas mãos de meu pai tinha a intenção de fazer terminar ali o que quase não começara.
Minha mãe, que num só grito me fez chegar a ela e juntas, com uma força além do corpo fizemos aquela faca se diluir no chão. Sei que nos saltos que dei para conseguir impedir esse fatal desfecho, estavas tu, Me agarrando no colo, aliviando minha garganta ferida de tanto gritar e meus olhos que por instantes cegaram.
Seguraste em minha cabeça quando tantas vezes pensei que o fim seria a melhor solução para a dor que me entorpecida os passos e o destino. Estavas lá mesmo quando aos 12 anos tingi de lágrimas as folhas do meu diário perfumado, aquele que recebi e pelo qual tinha especial carinho, pois ele guardava fechado a sete chaves os meus maiores segredos. - Que presente tão especial foi aquele diário, que me chegara no meio de tantas dificuldades e banhava de luz e esperança os meus dias de menina que acreditava que tudo aquilo que ali escrevesse um dia se realizaria. Via nele o passaporte para a minha alforria. Eu tinha a certeza de que a minha felicidade, essa, aconteceria no dia em que um cavaleiro alto e bonito entrasse empoderado pela minha porta adentro e amplamente apaixonado por mim me resgataria daquela opacidade em que vivia. Eu sei, ali também estavas Tu nesse meu sonho de menina, tão pertinho que hoje reconheço que permanecias nos muitos sinais de esperança que surgiram, mas era tudo tão ruidoso que não Te consegui ouvir.
És Tu quem também está quando com o meu filho mais velho no caminho da escola para casa e entre gargalhadas, pistas e charadas tento a todo custo que ele descubra o que preparei para o almoço nos dias em que almoçamos só os dois e sorrimos sem sentido, quando as pistas que lhe dou não são boas o suficiente para ele acertar no que lhe reservo para o menu.
Fecho os olhos e a última coisa que vejo és Tu. Adormeço e quando dou por mim estás de mão dada comigo para me levares aos lugares onde só o espírito entra. Assim que abro os olhos, agradeço, pois é a Ti que vejo ao acordar. Levanto meus braços aos céus em sinal de gratidão e és Tu quem ali está para os receber.
À noite enquanto todos dormem, minha alma livre e solta da prisão do corpo se atreve a vivenciar as mais diversas experiências.
Livre das amarras e das convenções do dia a dia, a minha alma tem aprendido lições importantes sobre humildade, desapego, respeito, tempo, amor, amizade e caminhos. Na maior parte das vezes não é fácil regressar à realidade corpórea em que preciso desempenhar tantas funções, pois de noite sou só a alma e tendo isso bem presente, trago para os meus dias esta verdade, a de que sou só esse quê, que percorrendo as muitas viagens que lhe foram concedidas sempre vivi o outro lado da vida, o lado mais dentro e isso me apaziguo de alguma forma, pois esse tem sido sempre o lado com mais peso, as lentes pelas quais alcanço entendimento em todas as coisas.
Sei que para além do que vivi a partir destas vidas, há muitas mais camadas que têm vindo ao encontro a luz no meio das trevas sei que só através de cada pegada deixada neste caminho evolutivo, esse encontro será possível.
Eu fui cada uma delas. Eu sou cada uma delas.
Estas experiências que vivi pela Sua mão tornaram o meu coração mais humilde, perante o fato de, quando despidos do que achamos ser, somos levados a viver o que somos de verdade, a nossa alma e poder sê-la em cada nova vida, em cada nova oportunidade que Deus nos concede de melhoria, é a maior prova do seu amor por nós.

Comentários
Enviar um comentário