Só com Maria vi minha sensibilidade ser compreendida.
Estas experiências que vivi pela sua mão tornaram o meu coração mais humilde, perante o fato de, quando despidos do que achamos ser, somos levados a viver o que já fomos e do que ainda carregamos dentro, a nossa alma e poder sentir o pulsar dessa alma em cada diferente vida, em cada nova oportunidade que Deus nos concedeu de melhoria, é a maior prova do seu amor por nós e por isso digo que o amor mais bonito que tenho vivido tem por banda sonora estes tempos de dentro e por pano de fundo este infinito. Quando os dois se cruzam, eu sei, o divino romance começa.
Nada disto é ficção. Tudo aquilo que deixo por testemunho nestas palavras são vivências reais que tive e continuo a ter nas minhas saídas do corpo, à noite, enquanto o meu corpo dorme e se restabelece, minha alma, livre de qualquer amarra, é convidada a viver. Desta outra vida trago aprendizagens que não alcanço de olhos abertos e encerrada no corpo que neste momento me serve de veste. Aos poucos fui encaixando toda esta realidade que vivia a par dos meus dias e hoje é de forma natural que convivo com este outro lado.
Nesta minha experiência com vidas passadas terei de contar como tudo começa. Eu me vi a chegar a um lugar sem dimensão onde estava uma enorme fila de pessoas. Era impossível ver-lhe o final. Eram muitas e aquilo à partida me chocou um pouco, porque tinha eu de aguardar tanto tempo por algo que eu nem sabia o que era? -Mas surpreendentemente algo aconteceu. Uma mulher impecavelmente vestida de branco, com gestos assertivos e uma certeza irrepreensível no que fazia, me disse que devia segui-la, pois tinha recebido ordens para me levar e assim rompi aquela fila gigante de pessoas que ali continuariam a aguardar. Obediente, segui-a. Fui levada então a uma sala que dava abertura para um corredor. Percorremos esse corredor que respirava uma intensa atividade de pessoas que passavam de um lado para o outro. Continuando a segui-la, ela me entregou a um rapaz, também ele vestido de um branco imaculado e de tal forma intenso que quase magoava o meu olhar despreparado para aquele brilho. Nenhum deles falou comigo além do estritamente necessário, como se eles ali estivessem cumprindo estritamente a sua função, assim como também eu ali estivesse com um propósito bem definido. Ele me disse que deveria entrar por uma porta que estava ali bem diante de mim. Ainda que sem saber ao que ia, abri a porta também ela branca e entrei. Fui nesse instante como que sugada por um vórtice fortíssimo, cuja saída foi a primeira vida passada que revisitei e foi revisitando algumas das minhas vidas passadas que me deparei com um traço que era comum a todas elas e esse traço comum não era a cultura em que me vi inserida, nem era o tom de pele nem tão pouco a constituição física, mas a sensibilidade que carregava.
Estas experiências me mostraram que muita coisa muda de vida para vida, mas a nossa alma contém em si caraterísticas fazem parte dela e a tornam inteira. Jamais podemos viver na plenitude se não manifestarmos essas caraterísticas.
É essa alma e não o corpo quem rasga os véus de cada uma das existências e num impulso por tantas vezes consciente e outras inconsciente nos convida à evolução.
Quando pela mão de Maria sou levada, os meus pés se soltam do chão e vou além deste mundo físico e todos estes mergulhos são banhos de verdade, são banhos de vida.
As viagens que faço são sempre uma surpresa. Nunca sei onde Maria quer que eu vá. Nunca sei onde ela precisa que eu vá, mas sigo e é com muita alegria que observo esta beleza que reside nos tempos de dentro. Eles nutrem uma cadência muito própria, muito diferente dos ritmos ditados pelos ponteiros do relógio, pelos números que se somam no calendário e pela vida dita normal que vivo fora.
Revisitei outras vidas, em outros tempos, outros cenários, em que me vi com outros corpos e outras roupagens, mas a alma essa era a minha.
Nesta primeira vida eu era nativa de um povo primitivo. De pele muito morena, jovem, extremamente magra e alta. Olhando para baixo tinha a perspetiva de minhas pernas alongadas e de como o meu corpo era esguio. Estava despida, tendo somente uma pele que cobria a zona íntima, tudo o resto estava desnudo. Eu me escondia de alguma coisa e me vi atrás de um frondoso arbusto. Os meus pés grandes pisavam uma terra fria em tons cobre. Eu não queria ser vista e fazia um enorme esforço para que o meu avultado corpo não fosse visto por detrás daquele verde que me encobria.
Sentia-me bela e jovem e trazia um grande amor no coração. Quase que conseguia apalpar a minha sensibilidade. Eu sentia um amor profundo por um homem, por um homem mais velho, mas ninguém compreendia este meu sentir. A par deste amor, havia uma emoção também presente em mim naquele momento, ciúmes. Por entre os arbustos eu conseguia observar ao longe, de costas um casal que se afastava de mãos dada. Eu amava aquele homem, mas sentia-o inacessível. Ele não podia ser meu. Ele pertencia a uma outra tribo e com ele estava uma nativa pertencente também a essa mesma tribo.
Eu era de uma tribo que usava peles que cobriam partes do corpo. Eles, com uma tonalidade de pele mais escura, "vestiam" pinceladas em tons terracota.
Ele não sabia que eu o amava, pois não era permitido que membros de diferentes tribos cruzassem corpos e laços e assim eu transportava dentro e num incompreendido silêncio este amor. Eu não compreendia aquelas convenções ditadas pela cultura e diluída nesse pensar, os ciúmes ganharam espaço e num impulso comecei a correr. Minhas pernas compridas e velozes depressa os ultrapassaram. Eu queria que ele me visse cometer aquele ato de loucura, mas tão carregado de simbolismo. Se não me era permitido viver aquele amor, de que valia ficar viva e aquela nublosa emoção me levou a correr em direção a uma queda fatal. Em nenhum momento senti uma outra emoção para além do ciúme. Não sentindo medo, me atirei da beirada do precipício que culminava lá em baixo num mar revolto, mas cristalino. Me atirei e enquanto o meu corpo era puxado para o fundo, senti que aquela emoção que levara àquela atitude irrefletida era um pequenino detalhe diante de uma vida. Soube que tinha sido aquela sensibilidade, o não ser compreendida por ninguém que me levara a cometer tamanha loucura e naquele instante algo em mim não quis morrer e naquele instante senti que aquela sensibilidade devia ser vivida de uma outra forma que não aquela. Enquanto os meus pensamentos me levaram a viver esta narrativa internamente, senti o meu corpo, que ao contrário, era agora levado para cima. Estava sem mais ar nos pulmões e quando cheguei à tona da água estava sem forças físicas, mas a minha alma, essa estava pronta para viver uma nova vida. Olhei ao redor e ouvi pássaros ao longe evocando sua linguagem que faziam eco dentro de mim. O som de uma colossal queda de água fazia-se ouvir um pouco mais ao longe e os meus olhos estavam presos àquela beleza natural que sempre ali estivera, mas que eu nunca tinha dado real valor. Aquilo que tinha-me levado até aquele momento já não residia na minha mente. Toda eu era absorvida pelos sons que emanavam da mãe natureza e que ao longe me convidavam à vida. Ali estava eu, contemplando toda a magia que residia naquele lugar que era na verdade a minha casa. Tudo ao meu redor me chamava agora para colocar a minha sensibilidade ao serviço de algo que me era totalmente novo.
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continua
Muitos corpos, uma só alma II

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