Não sou o meu corpo

 

Só quando fecho os olhos, sei, consigo ver quem sou. Só quando fecho os olhos, eu sei, consigo saber o que sou.
Decorria 2008 e eu havia chegado fazia pouco tempo a um novo País, a uma nova cidade. Uma cidade que me acolhera e que seria, por um tempo, a minha cidade. Banhada por serra e mar, esse lugar pleno de efervescentes encantos iria ser testemunha de um marcante momento, ver-me parir como mãe pela primeira vez, mas esse lugar ficaria tatuado em mim, por uma outra razão, essa, que daria uma nova rota à minha vida, à vida de dentro.
A minha ida para esse País me afastou de tudo, mas o que eu não sabia é que ele tinha um único propósito me aproximar de mim.
Aquilo que me foi dado a viver marcou o ponto de partida deste caminho dentro e segura segui, pois tive sempre Maria por perto.

Foi ali, no sofá da minha sala que após adormecer, tive uma experiência metafísica que me deu a conhecer quem eu era de verdade. Eu não era o meu corpo, eu era algo que habitava dentro dele e esse algo se apresentaria a mim, olhos nos olhos, frente a frente, sem que eu tivesse sequer tempo ou reação para não acreditar. Nessa tarde eu teria a primeira experiência lúcida da saída da minha alma do corpo.

Eu soubera que aquilo que estava a vivenciar já me havia acontecido antes, mas estando tão envolvida com a superficialidade dos dias, deixei que escapasse por entre as neblinas que a superficialidade oferece, até que naquela tarde de Outono, adormeci no sofá. 

Me levantei pouco depois, me movimentando para o lado direito, para próximo de uma janela que deixava uma tenra claridade entrar. Não tive perceção de quanto tempo ali estive, até que senti apelo em me sentar no braço do sofá. Do lugar onde estava, olhei para o sofá e ali estava eu, deitada, de onde, tempos antes tinha-me levantado. Da minha boca saiu um som, mas o ar não levava esse som aos meus ouvidos carnais. Esse som saiu de mim com mais intensidade, mas ainda assim os meus ouvidos permaneciam surdos para a vida além ele próprio. 

Ali estávamos o "eu corpo" e o "eu espírito".
O "eu corpo" e o "eu alma", cópias idênticas, mas de uma notável diferença, a densidade. Ainda que cópia, o meu espírito era leve, translúcido e de um colorido sutil. Me levantei e continuei a falar para que deitada no sofá me pudesse ouvir. Sim, eu queria que aquela que ali estava, eu mesma, me conseguisse ouvir, mas foi em vão esse esforço, pois ali continuava, ausente para tudo aquilo que  ocorria.

O meu espírito tomava então lucidez de que era livre, livre para deixar aquele aparelho que lhe servia de veste, livre para que, enquanto o corpo se regenerava, ele pudesse ter espaço para se adentrar num novo mundo que se abria agora ali à sua frente.
   
Senti e soube que ele, o meu corpo era uma coisa e eu era outra, eu era a minha alma. 
O meu corpo era aquele, que ali, vazio de mim, jazia profundamente em cima do sofá, mas ali estava eu, viva e solta e o meu corpo, que somente unidos por um frágil fio viviam um dentro do outro para que aqui pudessem ter todas as experiências que a vida corpórea oferece. Era um só fio que nos ligava. Um frágil fio, a vida, que entrava e saía de mim. Esse frágil fio tinha um nome.. respiração.

 


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