Sempre ouvi falar no olho do furação como sendo enganosamente a zona mais calma de uma tempestade. O olho do furação é a zona central de um fenómeno que tem a capacidade de arrasar tudo por onde passa, mas bem nesse meio, nada acontece, há um parecer brando, de que nada está a acontecer, a aparente sensação de que o pior já passou e de que ali está tudo bem. Assim observo a vida que tinha antes de (re)encontrar Maria; aparentemente cheia, mas de um silêncio inebriante e enganador. Sim, eu estava no olho do furacão.
Sempre fui aquela miúda, a que se não era social e que por não ser social vivia num mundo só seu. Creio que ainda sou essa miúda.
Tinha mais apetência para me aproximar dos colegas, que tal como eu viviam à margem de uma maioria eufórica. Alma velha é o que sou, disse por tantas vezes à minha mãe. Mal sabia eu que esta maturidade que me absorvia os dias seria o tesouro mais valioso que tatuava a minha alma.
Nunca fumei. Provei um cigarro do meu avô para perceber que não gostava do sabor.
A minha mãe contava que havia provado um cigarro numa certa noite, assolada por dores de dentes. Fumar deveria ser algo forte, pensei eu, quando ela me contou.
Fumar, algo que ela detestava e fazê-lo para que uma dor de dentes lhe passasse mexeu comigo. Estava eu longe de imaginar que fumar pudesse ter esse efeito sanador, o de diminuir tamanha dor, como a dor de um dente.
Fumar, algo que ela detestava e fazê-lo para que uma dor de dentes lhe passasse mexeu comigo. Estava eu longe de imaginar que fumar pudesse ter esse efeito sanador, o de diminuir tamanha dor, como a dor de um dente.
Será que quem fuma, também fuma para atenuar as suas dores da alma, refletia eu na altura, ainda adolescente.
Fumar na minha adolescência dava um status e fazia sentir a quem fumava de que pertencia a uma elite de jovens à frente do seu tempo. Verdade é que nunca me senti à frente do meu tempo. Pelo contrário senti sempre que estava bem atrás daqueles tempos e um sentir de desadequação sempre me assolou.
Os colegas da minha idade não me satisfaziam nem nas conversas nem nas vivências. Me vi sempre como alguém incompreendido, com amizades que sempre foram fugazes e se desenvolviam a um nível mais superficial e por assim ser ali permaneceram cristalizadas naqueles tempos. Nenhuma delas me acompanhou até aos meus dias de hoje e ainda que mantenha contato com uma ou outra pessoa, são contatos sociais e de pouca expressão na minha vida. As luzes e os barulhos do mundo nunca preencheram os meus vazios, essa é a minha verdade. Fui sempre a adolescente estranha com olhos esquisitos, um de cada cor que era gozada por tê-los diferentes e mal tratada pelas roupas e sapatos fora de moda. A adolescente que gostava de estar com pessoas mais velhas, que foi criada numa zona rural e que com cerca de 8 anos fantasiava romances com o filho do vizinho 16 anos mais velho que quando passava pelo portão dos meus avós e me via a brincar com as bonecas se metia comigo, dizendo que era "a desconhecida", como ele ousava brincar comigo. Era uma forma carinhosa de se meter com uma miúda muito envergonhada que virava a cara ao lado para não dizer nada. A minha timidez sempre foi incompreendida e em adolescente era por vezes apelidada de arrogante e vaidosa, quando na verdade aquilo que sempre me acometeu foi uma grande timidez em encarar o outro. Recordo desde sempre este sentir, o de que era uma alma velha, sem saber muito bem o que isso significava. Havia em mim uma maturidade que não encaixava com o "ser criança". Os convívios com colegas ou amigos, com os anos foram minimizando e perdendo expressão, pois era na solidão que mais preenchida me sentia, a ler, a ouvir música, a escrever e a desenhar, a fantasiar o dia em que um príncipe encantado chegaria e entenderia todos estes meus universos internos, me colocaria em cima da sua montada, teríamos muitos filhos e seríamos felizes para sempre.
Hoje, com mais clareza me assumo sim um pouco anti social que só na gruta se sente realmente ela mesma, ladeada por livros, letras e desenhos. A família, o ser mãe e companheira vem a par disso, complementar esta parte de mim que gosta de cuidar. A verdade é sozinha sinto que sou uma multidão. Maria me ajudou a construir este lugar de afetos que me transformou numa mãe e mulher mais inteira, me ajudou a lapidar, com muito sangue, suor e lágrimas, mas acima de tudo com muito amor este eu que hoje sou.
Quando conheci Maria tinha um relacionamento vazio de conteúdo, mas pleno em dúvidas e dívidas. Quando conheci Maria toda eu era uma dúvida.
Através dela me aproximei de Jesus, de Maria Madalena, de Santa Clara e S. Francisco de Assis, Divaldo Franco, de Chico Xavier, de um manancial de literatura espírita e de tantas e tantas literaturas e vivências que com os anos foram moldando e vergando o meu espírito sedento de esclarecimento.
Quando falo de aproximação de todas estas fontes não falo de crenças e dogmas, mas de uma aproximação a fontes de puro amor, essa força que tudo move e cria, a força que tudo torna possível, só a partir do qual tudo cresce, tudo se desenvolve, tudo evolui. Uma vez Maria me disse "que o amor pode criar laços, como também pode quebrá-los, mas seja como for, o amor sempre acontece, até aí, onde reside a quebra desses laços".
Aprendi tanto com Ela. Aprendo tanto com Ela. Com ela aprendo que nada mais sou que um grão de areia no deserto, que fundida Nela sou o mesmo grão de areia, mas banhada numa amplidão infinita de amor.

Que texto lindo lindo lindo.... Aqui fico colada a cada texto teu Amiga. Que pureza nas tuas palavras.... Até consigo ver uma Xana aí em muitos momentos. Que lindo ler te❤️ Este texto é maravilhoso, mesmo mesmo 💜💜💜
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