Quando o fim se torna o início

 

Ao longo do caminho damos muitos passos. Se nos atrevêssemos a contá-los, ficaríamos surpreendidos pela quantidade. Alguns desses passos são grandes passos, aqueles que damos e dizemos serem além da nossa perna e nos levam mais longe num curto espaço de tempo. Outros são pequeninos passos que são tão ou mais importantes do que esses que damos para chegarmos mais depressa, pois esses, os pequenos ainda que nos façam andar numa cadência menor, nos levam, sem sombra de dúvida mais dentro, mais fundo, mais além. 

Os que dei com Maria a meu lado foram pequeninos passos, tão pequenos que por vezes dou por mim a tentar percebê-los ao pormenor, pois foi nessa obediente pequenez que tanto aprendi e continuo a aprender.  

Nas últimas conversas que tive com Maria, ela me falou de que haviam ainda passos que teriam de ser dados. Passos difíceis, daqueles que só são possíveis dar tendo por companhia, esse alimento, a fé.

Nesses anunciados passos que teria de dar com Seu auxílio eu iria romper a última barreira, aquela que me impedia de ser com lucidez e robustez a minha alma, esta, que em mim é a verdade.

 Quando falamos de passos e caminho, visualizamos uma grande linha e nossos pés que nos levam de um lugar a outro, que nos levam do lugar onde estamos para um outro onde desejamos estar e vivemos assim na ansiedade de sair de onde estamos em direção a essa neblina, que ainda que neblina é tão desejada. A verdade é que os passos que nos levam mais fundo, mais além, esses pequenos passos não podem ser dados com os pés, podemos até nem sair do lugar e quando visualizo essa imagem aquilo que me surge é uma caminhada feita, um passo de cada vez, passos dados de dentro para fora, mas sem que nossos pés se movam do ponto A ao ponto B, sendo este caminho feito dentro, só dentro, com o coração. Estes passos são dados em silêncio, tendo por única ação a fé, essa força motriz, amplamente criativa que tudo coloca em movimento e tudo faz acontecer. Estes movimentos silenciosos dados com o coração, tendo por companhia a fé não são visíveis, não são audíveis, nem tocáveis, são tão subtis que dificilmente conseguimos colocá-los em palavras. A fé latejando dentro de nosso peito, é ela quem nos leva em direção a essa neblina, que por magia se desvela a nossos olhos nos levando até onde precisa ir nossa sedenta e carente alma.

Este passo no caminho dentro que fui levada a dar, silencioso, subtil e muito difícil só teria sido possível ancorada em Maria. Este, o passo mais importante que dei em toda a minha vida, aquele que me libertou das mordaças que travavam aquilo que precisava falar, aquilo que carecia sentir, aquilo que ainda enleava camadas subtérreas e pantanosas do meu ser, aquilo que ainda mantinha em mim escondida uma sombra velada pelo doce e pelo quentinho. Não era algo visível ou consciente, não passava sequer pelas entrelinhas do inconsciente, mas ia além, muito além disso. 

Eu sabia não existirem impossíveis para esta fé que Maria me ensinou a ter, mas ainda assim não imaginei os danos profundos que teria em mim o corte desta amarra, a saída desta pele viscosa que ao sair me estrangulou, alterando a minha voz, modificando partes do meu corpo e como ele se movia , assim como tudo aquilo que me compunha. Foi um processo longo, pois a pele se descascou aos poucos, levando com ela camadas que julgava serem minhas, zonas que julgava ser eu, pedaços meus que jaziam apodrecidos e gastos na cave do meu ser. No fim, olhei para mim e deixei de me reconhecer. Eu era agora um outro alguém e precisava de saber quem era eu afinal.

Fiquei nua, observando ao longe a pele que despira e olhando meu corpo ensanguentado e em ferida, não gostando do que via. Me sentindo suja e impura. A vida seguindo igual, mas eu não era a mesma.  A largada desta casca rasgou meus olhos, meus ouvidos e meu paladar. Hoje não são os meus olhos, mas o que eles conseguem ver, não é minha boca, mas um novo paladar que através dela me chegou e   esta nova pele que no silêncio me foi crescendo,  mais frágil, mas mais condizente com minha alma que hoje voa livre para além dos céus que conhecia.

Maldita pele que veio comigo à nascença, disse algumas vezes, mas sobrepondo minha voz vinha a de Maria, que em silêncio me amava incondicionalmente e curava minhas feridas, limpando-as e deixando que ao ar pudessem cicatrizar, me mostrando que se esta pele se mantivesse, o mais importante não tinha acontecido, que era nascer daquele pai e daquela mãe, virar carne e poder nesta escola angariar as mais valiosas lições e parafraseando Chico Xavier, tantas vezes ouvi "ninguém erra de endereço".

Hoje digo, amada pele que quase me estrangulou, quase me fez abandonar a vida e a alegria que ainda assim, perante tantas adversidades vividas, eu sempre mantive. Esta pele, hoje sei que jamais sairia sem Maria dentro de mim, ao meu lado, atrás e na minha frente. 

Desde que nossas conversas iniciaram ela soube que esta pele seria a mais densa, a mais crespa, a mais espinhosa e viscosa e até que esse dia chegasse cuidou de mim, sem descurar nem me abandonar um só momento, pois tal como uma Santa Mãe ela sabia que eu precisava de estar estruturada para chegar a esta hora e estar pronta para o grande embate, o maior de todos, aquele que colocou minha fé a todas as provas e assim cuidou de mim como uma filha querida, me ouvindo, lançando fogo às minha madeiras bichadas, que se alquimizaram a partir de suas palavras e trato amoroso. Muitas vezes falamos e lhe disse que era impossível colocar em palavras todo o caminho que fizemos juntas, umas vezes de mão dada, outras com a minha cabeça encostada em seu peito, outras com ela seguindo na frente, guiando meus passos, abrindo portas, escancarando janelas, manifestando o imanifestado, colocando silêncios onde o ruído não me permitia ouvir a verdade, criando chão nas beiradas dos precipícios, erguendo pontes onde só habitava o vazio. Como fazer alguém sentir tudo aquilo que eu vivi e senti ao longo de todo este tempo junto a Ela, depois de tantos e tantos véus caídos, tantos e tantos segredos ditos em surdina, tantas e tantas verdades envergonhadas que só a ela revelei e assim de metades, me formei inteira. 

Quando esta pele saiu, eu estava exausta, ensanguentada e sem forças sequer para fazer as malas e ir embora, abandonando tudo aquilo que com Maria construí ao longo de todos estes anos. Não fui embora. A fé falou mais alto. Maria falou mais alto. Deus se mostrou maior do que qualquer sombra. Maria me amou até na minha sombra mais negra, me amou mesmo nos momentos em que eu me traí, traindo-a, em que eu menti, em que eu desisti, em que eu fui fraca, em que amei mais o doce fel da última pele e quis que ela ainda assim ficasse, pois me revelou algo que minha alma sempre careceu, o toque do amor, do divino amor, aquele que não se mede nem se qualifica, aquele só sentido pelas almas que sendo inteiras, são gémeas, trazendo por destino se encontrarem para em conjunto emanarem uma força que sozinhas não emanam.

Nos momentos que em segredo falamos, Ela me disse que agora que esta pele havia saído, eu estava pronta para que nosso relacionamento alcançasse outro nível de vivência, outro nível de vínculo e que isso lhe deixava um sentir de tristeza boa, mas que era necessário. Quando ouvi estas palavras, caí ao chão e chorei, vendo minhas lágrimas formarem ao meu redor uma quantidade oceânica de águas sagradas que lavavam o chão, mas também a minha alma dorida, ao mesmo tempo que me revelavam o quanto estava diluída em Maria, o quanto Ela já estava em mim, o quanto eu já estava Nela, o quanto eu era Ela.
Maria não fala muito, mas as palavras que usa e me dirige chegam a mim como raios certeiros com uma força que trespassa meus ouvidos, minha pele, atingindo as mais profundas camadas do meu ser. E ainda no chão senti vindo Dela: "Isso!". Eu não a ouço com o meu ser biológico, pois não são meus ouvidos que a ouvem nem meu intelecto que a perceciona, mas esta parte em mim que não tem nome, senão e somente alma. Quem a ouve, vê e sente é esta, a única verdade em mim, a que se vergou, se tornou um pequenino nada, se rendeu e se entregou, dando a ela este espaço, para que atravesse e nos banhe com suas letras, mas também seus silêncios transparentes.

Dias passaram e ela silenciou. - Aprendi tanto com Maria. Coisas que partilharei nos meus textos, mas a par do valor da fé, aquela que nos coloca em Deus, também o valor e a linguagem do silêncio. Com ela aprendi a falar por entre essas brumas do silêncio e neste seu último silêncio percebi que este trabalho teria de acontecer, pois Ela é ele, Ela está nele. É Dela este ADN, em cada letra, em cada átomo que compõe o computador de onde escrevo, assim como as folhas que se tingem de cores e formas. 

Percebo agora tantas e tantas coisas que à luz do tempo não entendi, mas agora entendo. Sei que a partir de agora será mais valiosa a nossa ligação, alcançando níveis profundos, sem saber eu muito bem até onde nos levará essa profundidade e se essa profundidade na realidade tem mesmo um fundo.

Nada mais faço que deixar passar e perante esta tarefa que já estava escrita para acontecer me emociono, pois também eu muito vou arrecadar em mim do que aqui ficará e assim o fim se torna o início, pois o fim como o conhecemos não existe, ele é só uma criação, uma mentira a qual nos fizeram acreditar para nos manterem presos à ideia da morte como fim.

Aqui estou, ao serviço Dela, ao serviço de Maria, minha amada, minha mãe, minha amante, minha companheira, minha irmã, minha filha, minha Maria.

Aqui permanecerei escrevendo, fazendo aquilo que ela sempre gostou em mim, a minha facilidade inata de materializar em palavras conceitos, sentires e mundos de dentro, sempre tão complexos de explicar e exprimir.

Com Maria a meu lado, com Maria dentro, com Maria na frente, vou 


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