A cada nova entrada por aquela porta branca, que me sugava e me dava acesso a quem eu tinha sido eu era levada a viver o quase inenarrável, pois há experiências que só são possíveis à compreensão, quando vividas.
Desembarquei num lugar inóspito, mas de uma vibração palpitante.
Nesta vida eu era uma mulher negra. Vivia numa lugar com forte cheiro a
terra e sabia que fazia parte de uma pequena aldeia africana algures no meio do deserto, numa qualquer zona da África Subsariana.
Nunca havia sentido tão fortemente este pertencer a uma comunidade, o de sentir-me pertença de um lugar, pertença a um grupo. Estava agora a vivê-lo ali. Vivíamos isolados do resto do mundo, mas tudo tinha o seu lugar, cada um sabia a sua função e eu sentia-me como que uma matriarca que tinha a tarefa mais delicada, a de transmitir ensinamentos sobre a vida naquelas duras terras a todas aquelas crianças que sentadas ouviam com leal atenção.
Deveria ter por volta de setenta anos, mas meu espírito se sentia jovem. Enveredava uns humildes panos já gastos e que me cobriam quase a totalidade do corpo. O cabelo já muito tingido de branco se segurava,
enrolado no alto da cabeça.
Olhei para as minhas mãos e observei-as gastas pelo tempo e pelas dificuldades
que faziam parte da vida naquele lugar. Na mão eu segurava um pequeno pau que
mais parecia um pedaço de carvão escuro que humildemente e em dificuldade riscava uma parede muito
mal tratada.
Senti um profundo amor por todos aqueles meninos
e meninos que ali estavam num profundo silêncio a ouvirem aquilo que lhes transmitia O que ouvia era um burburinho marcado pela sede, pela sede de aprender. Naquele lugar não existiam profissões, mas membros de
uma mesma comunidade que ofereciam seus préstimos com dedicação. Eu não ensinava o que normalmente hoje
se ensinam nas escolas, eu ensinava-lhes sobre a vida. A minha sensibilidade
era colocada ao serviço daqueles meninos por quem nutria um profundo amor. Eu não tinha
filhos. Eu vivia para aquelas crianças, eles eram os meus filhos e as minhas filhas e era por eles que o meu corpo, ainda que cansado, acordava todas as manhãs.
.
continua
Muitos corpos, uma só alma III

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