A morte e a vida Interior

 


Não entendia, porque o sentir de inadequação estava sempre tão presente. Como podia alguém me entender se nem eu mesma compreendia e esta incompreensão foi dando à dor e às dificuldades mais espaço para que se movimentassem. A miúda nunca existiu, nasci já crescida, numa maturidade que por tantas vezes me impediu de solta ser, a criança que resgatei já em idade adulta.
A montanha russa de vivências acontecia, mas ela nunca era lugar de gargalhadas, mas a cada subida e descida, antes um espaço reservado ao isolamento cada vez mais profundo, profundo demais para quem chegara à terra fazia pouco tempo.
Tanto era o lodo que me prendia os movimentos e mantinha cativa a minha liberdade, só depois entendi, o lodo era o adubo necessário e essencial ao fortalecimento das sementes que mais tarde deram frutos de raros sabores, flores cujo formato e pigmentação nunca vira, arbustos solenes, árvores frondosas, lagos serpenteantes de águas salgadas e doces, céus multicoloridos, criando o imenso jardim onde agora me deito e contemplo a vida que sou. Quão raro e belo é o existir. Quão raro e belo é ser alma quando o padrão é ser gente. A cada situação dorida vi morrer tanto do que não era, para que a cada renascer de uma nova pele, o ser que hoje diluída em Deus sou, flutue ao invés de andar.
Não temo a morte, encarei-a vezes demais, com ela sentada falei e por tantas vezes foi ela quem me entendeu neste incessante e contínuo processo do crescer. Sei que no dia em que ela chegar, não a temerei, pois não será a visita de alguém estranho, mas aquela amiga que me bate à porta para que juntas possamos dar continuidade a este ritmado expandir.

"Porquê"
, questionei-a ao longo da vida. -"Queres crescer?, então precisas da companhia de ti mesmo e quando falares com alguém, não te percas e fala com esse alguém sobre ti mesmo e nunca sobre nenhuma outra pessoa. -Queres crescer? Dedica tempo a outro alguém, para que esse alguém sinta em ti o espaço vazio para falar de si mesmo."

Fiz tantas coisas que não deveria ter feito, proferi tantas palavras que não se deveriam ter soltado de mim, tantos pensamentos que em nada abonaram os meus dias, mas em cada uma dessas situações fui testada, testada ao limite, pois a vida me colocou em lugares onde poderia ter resvalado, me levou a viver situações que poderiam ter-me feito cair, mas não caí, eu estava a ser vista, vista por dentro e esse dentro me foi narrando a rota, onde e como ir, o que fazer, o que dizer, o que ocultar, o que revelar. Hoje, tudo o que faço, faço através dessa voz, essa sentinela, essa chama acesa, a alma, que mais avançada ou menos avançada sempre tem o que dizer. Não faço absolutamente nada que não seja para me dar regozijo e por isso tudo o que faço pelo corpo e através dele, faço, porque me dá prazer, mas tudo o que faço e envolve a minha alma, faço-o, porque eleva esse prazer a lugares que não estão acessíveis a serem percorridos a não ser através dela, a alma, capitã e soberana em todas as coisas e é por ela que tantas vezes me perco e por tantas vezes me esqueço deste pequeno detalhe, o de que tenho um corpo ao qual esta alma dá vida.

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