Em criança comecei a sentir algo em relação à nudez, era algo em relação ao corpo isento de roupa, algo que me incomodava no corpo nu, mas não era um incómodo nefasto, mas era um sentido diferente perante esse fato natural de estar nu, de ver alguém nu. Em minha casa e porque éramos só eu e a minha mãe, a nudez sempre foi encarada como algo natural, tomávamos banho juntas, quando nos vestíamos ou despíamos nunca existia qualquer pudor uma diante da outra, mas ainda assim a nudez continuava a carregar algo que mexia comigo e eu não entendia.
Cresci e foi já na adolescência, na primeira aula de desenho de modelo nu vivo, num atelier rodeada de colegas que fui levada a entender que a nudez continha em si uma linguagem simbólica que só nessa aula me foi dada a descodificar. Entrei e aquele era um espaço totalmente diferente das outras salas da faculdade. Era um atelier cujo chão tinha uma madeira já muito gasta, todo ele era despojado de mesas, armários ou adereços desnecessários, era um lugar amplo e deixava uma extraordinária luz entrar.
No meio havia um estrado de madeira que seria o palco para uma das cenas mais marcantes da minha vida. Ao redor, milimetricamente distribuídos estavam os bancos altos e os cavaletes que seriam o nosso único apoio para um trabalho que me fazia sentir um nervoso miudinho desde que tivera acesso às cadeiras do curso e vi, teria uma disciplina cujo nome suscitava aquele incómodo que sempre estivera presente, "Desenho de modelo nu vivo". Numa fila entramos, num silêncio que carregava velados comentários envergonhados e vozes obscenas. Logo ao entrar percebi que havia uma cabine cujas roupas brotavam por cima da porta e fora logo ali que os sorrisos começaram, verdade é que todos estávamos entusiasmados, íamos estar perante alguém nu e plasmadas no ar, era inevitável, haviam a surpresa e a curiosidade.
Já todos sentados, cada um diante do seu cavalete e munidos de grafites de diferentes espessuras entrou a Genoveva, recordo o seu roupão de um branco imaculado que quase feriu o meu olhar, antes de revelar o seu corpo anafado e desprovido de formas definidas e enquanto ao longe ouvia os esperados risinhos, sentia que me aproximava de um estado alterado de consciência que me tiraria daquele lugar e me levaria para um outro. A música clássica começou a soar num rádio antigo, mas aquilo que poderia me servir de inspiração, nada mais era que um eco que ouvia distante, enquanto a voz entrecortada da professora dava as indicações, "Esta é a Genoveva e hoje ela será a nossa modelo. Vamos começar pelas poses longas e hoje o mais importante é captar as proporções", assim que a Genoveva tirou o roupão e cristalizou na posição, os comentários vieram em catadupa, mas eu já nada ouvi. Não consegui permanecer mais tempo naquela dimensão cujos colegas estavam diluídos, agora estava só eu e a Genoveva, cuja paixão pela arte a tinha colocado ali na minha frente para me revelar algo importante sobre mim. Deixei de observar o seu corpo curvilíneo e a sua alma foi aquilo que prendeu toda a minha atenção e foi essa alma que comecei a tatuar na grande folha de papel Kraft, os traços saíam numa vigorosa e ritmada dança e se esfumavam materializados pela gravite na folha.
Não tive a melhor das notas, não capturei o requisitado, pois foi na alma que me foquei, aquela que ali se revelou nua diante dos meus olhos inexperientes e fascinados pela oportunidade de poder conhecer a Genoveva, e, vendo que apesar de nutrida pelo amor que tinha à arte de posar perante jovens e renomados artistas, cujo valor recebido pouco importava perto da sua paixão, se debatia também com angústias íntimas profundas e eram elas que dominavam parte de si. Eu conseguia aceder à sua dor e mais do que isso, eu conseguia compreender a sua dor, que descascada de qualquer pudor se mostrou a mim.
Não tive a melhor das notas, não capturei o requisitado, pois foi na alma que me foquei, aquela que ali se revelou nua diante dos meus olhos inexperientes e fascinados pela oportunidade de poder conhecer a Genoveva, e, vendo que apesar de nutrida pelo amor que tinha à arte de posar perante jovens e renomados artistas, cujo valor recebido pouco importava perto da sua paixão, se debatia também com angústias íntimas profundas e eram elas que dominavam parte de si. Eu conseguia aceder à sua dor e mais do que isso, eu conseguia compreender a sua dor, que descascada de qualquer pudor se mostrou a mim.
Observei os colegas que me estavam próximo e percebi que me perdera e enquanto eles tinham lindos esboços, elevando cada linha à condição de obra prima, eu tinha rabiscado todas as movimentações da alma da Genoveva. Ainda hoje esse é o único esboço/retrato de desenho de modelo nu vivo que guardo, sem rosto, mas com todo uma expressividade tocante que residia na alma singular da Genoveva, em cada rasgado traço estão expostas todas as suas frágeis e brilhantes dimensões e não, eu não tive a melhor das notas, mas diante de tudo aquilo que aconteceu, a nota foi o que menos importância teve para mim.
Depois da Genoveva vieram o Gil, a Maria, o André, a Rita, a Carla, o António, o Sílvio, o Siro, homens, mulheres, velhos, novos, gordos, magros, pretos, brancos, mulatos, vieram humanos cujo seu corpo era animado por uma alma, aquela que eu me atrevia a colocar na folha A1 de Kraft. Os meus colegas presos ao detalhe das formas, das mamas insufladas, pequenas, empinadas, descaídas, nos olhos negros, verdes, azuis, nas gorduras a mais, nos músculos proeminentes, nas pernas escanzeladas, nas barrigas avental, nos membros íntimos, eu estava li diante da nudez de uma alma e emocionada me debatia com as suas fragilidades e também com a sua genialidade.
Terminei o curso e essa não foi disciplina com a melhor nota, mas eu não estava ali para apender a desenhar de forma exímia o corpo humano e os seus múltiplos detalhes, mas para expressar no papel o que não se mostrava visível aos olhos e fica difícil para qualquer docente aferir uma nota quando é do invisível que se trata, pois para mim sempre foi a nudez da alma e não a do corpo quem mexeu comigo e poder vê-la e vivenciá-la em todo o seu fulgor foi uma das mais preciosas pérolas que recebi.

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