Inspiração


Deus é quem me inspira.
Ele que é como um imenso jorro de água que vem e me envolve e eu escrevo, eu pinto, eu danço, eu choro, eu grito, eu me deito e me descubro, eu vivo para que nesse manto de água eu continue a banhar-me para que ele nunca seque em mim.
É uma bela melodia visitar os mesmos lugares, mas sentir coisas diferentes e neles me dissolver.
Já não sei onde termino eu e começa a minha alma, onde termino eu e começa tudo o que vejo, sinto e também sou. Nada veio até mim, já tudo cá estava, eu, é que feito criança, gatinhando, fui aos poucos me aproximando e descobrindo devagar, bem devagarinho, me deixando deslumbrar por cada coisa que via, que via dentro e não quis que tudo se revelasse logo, quis ir desvendando cada coisa no seu tempo, pois sei que só assim é possível sublimar o prazer.
Deus é uma experiência, a mais sublime das experiências. Antes de eu nascer já tudo cá estava, já tudo era assim e sei que quando for embora, tudo continuará a ser da mesma forma, este tudo que é a alma, a alma que é Deus e por muito que eu escreva, por muito que eu desenhe, pinte ou fale, jamais o conseguirei reproduzir, mas sei que o propósito de ter passado uma vez mais pelo canal de parto é levar os meus dias, tentando fazê-lo.
Sentes?
Consegues sentir-me, assim como eu te sinto?
Tomar consciência de que Deus é tudo e esse tudo é o que temos por escola, é levar os nossos dias a outros patamares da existência para que deixemos de viver este ou aquele acontecimento, esta ou aquela situação que nos faz chorar ou rir, passemos sim a viver tudo como uma experiência, uma experiência única e irrepetível e damos por nós a perceber que as pedras que se encontram debaixo de nossos pés são diamantes raríssimos e que com eles podemos construir maravilhosos palácios, o pó de que são feitas nos dão os preciosos pigmentos para diante de paredes brancas pintemos admiráveis murais e essas mesmas pedras são o pão sagrado que alimenta as nossas bocas famintas, os buracos que de surpresa levam as nossas pernas abaixo são os sulcos perfeitos de uma exótica gravura.
Há lugares que visito e são sempre os mesmos lugares, mas eles têm a capacidade de me surpreender e de me fascinar.
Sem me aperceber o sol desce e dou por mim extasiada a contemplá-lo. Os sons ficam mais apurados, as gaivotas me saúdam, dizendo que um novo ciclo está aí a chegar, os pequenos pássaros em conjunto entoam um cântico celeste e o bater das ondas nas pedras emolduram este cenário que se desenha ao meu olhar. Observo o pequeno barco que dança ao sabor da fraca ondulação, cativo à sua âncora, mas ainda assim livre na rigidez do seu casco. O final de mais um dia, de um dia perfeito.
Mais do que amplamente envolvida neste poema, eu sei que tal como o sol se põe ali adiante no horizonte para se erguer em novos sítios, também eu morro para o dia de hoje e sei que ali na frente renascerei para uma nova experiência e a que vivo aqui e agora é um rito de passagem. Eu não vim aqui, eu fui trazida até aqui.

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