O meu lugar

Em tempos de exigências externas, é bom poder ser nada, pois ainda que sendo nada, já se é alguma coisa. 
Nos dias em que os mundos de fora desejam ou ambicionam que eu seja uma flor, eu atrevo-me a ser um pequeno botão. Já não passa por eu saber quem eu sou, mas o que eu posso fazer com isso e é neste tempo de aprofundamento, de reflexão e de vazio que me delicio com os mais doces sumos da vida. O verdadeiro prazer, sei, reside aqui neste fundo que é ao mesmo tempo o cálice sagrado que contém em si a verdade da morte e da vida que me encaminha sem que eu tenha grande controlo, para o infinito, deixando mais leve este meu espírito que renuncia ao conforto dos dias úteis, para embrenhar-se nos matos inóspitos e intransitáveis, é por aí que gosto de perder-me. Aprender a adequar o compasso dos mundos de fora com este ritmo tão particular de minha velha e criativa alma tem sido a minha missão nos últimos anos, ao mesmo tempo que percebo-me a cada dia mais concentrada em levar os meus dias de acordo com o que Maria vem-me pedindo, que eu construa por dentro uma base sólida a cada manhã, pois essa é e será a minha verdadeira morada. 

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